terça-feira, 18 de setembro de 2007

Sergio Araujo > Pulo para a morte

A foto é a do pulo para a morte de uma senhora durante o incêndio do edifício Andorinhas, no Rio de Janeiro, em 1986. A foto foi feita com uma Nikon FM com motor (é só o que me lembro).
A foto foi feita no pátio interno do edifício para onde davam várias salas.

Eu estava presente no incêndio meio que por acaso. Estava na redação do Jornal da Vale, alguns metros distante, entregando material, quando vi a fumaça que saía do prédio. Fiz algumas fotos dali mesmo e me dirigi ao local. Lá chegando vi o desespero de todos, a confusão generalizada e vi esse pátio interno, que me pareceu um bom lugar para fazer algumas fotos, sem imaginar ainda o drama que iria viver ali. Para chegar lá tive que entrar correndo e me desviando dos detritos no chão, pois pedaços de janelas e vidros quebrados caiam sem parar. Lá chegando vi várias pessoas penduradas nas janelas, procurando ar para respirar e um lugar para fugir do calor pavoroso que fazia nas salas incendiadas.

Num andar mais alto havia duas pessoas numa das janelas: um senhor deitado que quase não se mexia, apenas acenava e uma senhora que estava de pé no parapeito, aguardando a chegada do socorro. De vez em quando ela fazia menção de pular, acenando para que as pessoas se afastassem. Todos os que lá estavam pediam para que ela não pulasse, se acalmasse e esperasse pelos bombeiros. Foram momentos angustiantes com a expectativa de que ela, não agüentando o calor, pulasse.
Quando o carro dos bombeiros, com a escada Magirus, chegou, achei que o drama iria finalmente acabar, mas a escada não alcançava o andar onde a senhora estava (creio que 12º) e ela, sem mais esperanças, pulou para a morte.

Foi uma comoção geral. Até mesmo para os policiais e repórteres fotográficos acostumados a acompanhar tragédias.
Nesse momento, em que ela pulou, acionei o motor da câmera e vim acompanhando a queda fotografando toda a seqüência do pulo, mas não consegui fazer a última foto, a da queda no chão, pois nesse momento, parei de fotografar e chorei, como muitos dos que ali estavam.
Até hoje relembrando esses fatos ainda me emociono.
O senhor que estava lá com ela, no 12º andar, deitado, aos poucos foi parando de acenar até que não agüentando as queimaduras e a falta de ar, morreu.
A pressão psicológica era imensa, como é fácil de se deduzir, e só fiquei fotografando porque nada mais poderia fazer para resolver aquela situação. Nada dependia de mim e o que eu poderia fazer era registrar esse momento.
Não estava submetido a nenhuma pressão profissional, pois eu não trabalhava para nenhum órgão de imprensa e estava ali por minha conta. Fiquei fotografando a tragédia, apesar de muito abalado, pois sou fotógrafo. É isso que faço.

Após a queda da senhora, continuei fotografando o incêndio e principalmente a movimentação dos bombeiros, que são verdadeiros heróis, apesar de não se mostrarem preparados para um evento desse porte. Inclusive em relação ao material e condições de trabalho, com várias mangueiras furadas e com falta de água nos hidrantes.
Na hora não tinha consciência de nada. Trabalhei no instinto, sem pensar no que faria com aquele material. Toda escolha feita, técnica, estética, psicológica foi puramente instintiva. Você usa o que você sabe, sem atentar para isso. Pelo menos eu, e nessa situação de pressão.
Esse material que produzi foi encaminhado para a agência de fotojornalismo Fotossíntese, pois eu não saberia como colocar esse material, que o apresentou para os veículos de comunicação. Depois desse evento e motivado por ele, passei a fazer parte dessa agência, como um de seus sócios.

A foto foi primeira página em vários jornais. Eu consegui a foto que os fotógrafos dos jornais não conseguiram. Foi primeira página no JB, O Dia, Tribuna da Imprensa, Estado de São Paulo, Folha, entre outros, e também foi veiculada no exterior, através da agência France Presse.

O Corpo de Bombeiros, através de seu departamento de Relações Públicas, procurou a agência Fotossíntese e pediu para ver o material. Então, perguntou se eu poderia ceder uma série das fotos para que pudessem servir de material nas palestras e cursos internos dos bombeiros. Eles constataram nas fotos algumas atitudes que poderiam ser corrigidas e gostariam de ter esse material para isso.
Claro que concordei e cedi o material.
Eu realmente não sei se a foto é, ou continua sendo, histórica. Depois do fato passado, eu achei que as fotos poderiam contribuir de maneira eficiente na correção dos problemas e dificuldades que os bombeiros enfrentam num desastre dessa proporção. Também achei que devido ao alto grau de emoção da imagem ela poderia servir para alertar as pessoas sobre os perigos da falta de manutenção dos equipamentos de combate a incêndios e sobre os procedimentos errados que eram/são feitos na prevenção de incêndios.
Um fato que mostra bem o que é a indústria, mesmo diante da tragédia, e que influencia o profissional até na escolha do material é que se eu tivesse feito a foto em cor, ela teria sido vendida muito mais, pois as agências internacionais e os veículos do exterior telefonaram para a Fotossíntese interessados em comprar a foto, mas queriam material em cor.
Por mais chocante que possa ser (e é), o profissional tem que manter um afastamento do fato e lidar com essas escolhas.
No que essa foto, mudou minha vida?
Profissionalmente, passei a ser mais considerado pelos colegas. No jornal da Vale, por exemplo, nessa época eu fazia parte dos fotógrafos que não viajavam para fazer matérias em outros estados, que só faziam o material local. Depois da foto, entrei para o time dos que viajavam. Passei no “teste”.
Pessoalmente, foi uma foto que me marcou muito. Durante muito tempo a lembrança do corpo caindo e do barulho da queda ficou na minha cabeça. É uma experiência traumatizante você ver alguém morrer na sua frente.

Sergio Araujo > Depois de quase ter sido advogado, formei-me em música e fui para a França fazer um curso de composição eletroacústica e pedagogia musical. Voltando ao Brasil, criei e apresentei alguns programas de rádio e finalmente virei fotógrafo.
Como fotógrafo comecei trabalhando com Albino Pinheiro, fazendo as fotos do show Seis e Meia, no teatro João Caetano e sendo, por alguns anos, o “fotógrafo oficial” da Banda de Ipanema. Fotografei para a ACET onde fiz fotos para programas, divulgação e cartazes de várias peças teatrais.
Sempre como free-lancer, trabalhei para a revista médica “Diálogos” do laboratório Roche e para o jornal interno da Cia. Vale do Rio Doce.
Em 1986 entrei para a agência de fotojornalismo Fotossíntese, onde prestei serviços para quase todos os órgãos de imprensa do Rio e de São Paulo, entre eles: Veja, Isto É, Manchete, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Tribuna da Imprensa, O Dia, JB, entre outros.
Após alguns anos, resolvi abrir um estúdio e partir para a foto publicitária, área onde me encontro até hoje.
Como fotógrafo de publicidade, já trabalhei para quase todas as agências do Rio e ganhei vários prêmios.
Como fotógrafo de arte, já participei de mais de 20 livros.

3 comentários:

Ricardo Drumond disse...

Sergio, tenho 34 anos e era criança nessa epóca. Lembro desse dia até hoje; exatamente com esta na sua foto. Me arrepiei todo aqui.
Um momento muito triste e uma ótima documentação. Parabéns

Rodrigo disse...

Sérgio,

Trabalho do Edifício Torre Almirante, hoje construído no lugar do Andorinha.

Suas fotos servem para lembrar-mos da importãncia de seguir normas de conduta quanto a incêndios.

Parabéns pelas imagens, que apesar de trágicas, servem de alerta eterno.

Sds,

Irma Lasmar disse...

Excelente texto, sábias palavras, delicioso blog. Obrigada por partilhar suas experiências conosco, mais novos e ávidos de informação.