terça-feira, 18 de setembro de 2007

Gilson Barreto > O prédio cai

No dia 02/09/1982, na Rua Fagundes Varela, Niterói, RJ, um prédio pronto, faltando apenas o habite-se, ruiu.


Era, na época, anunciado como o melhor de Icaraí, sendo que mais de quarenta apartamentos, de um total de cinquenta e seis unidades, já estavam vendidas. Mas, a má execução da obra, aliada à negligência da firma, levaram ao esmagamento de pilares, o que ocasionou a queda de um prédio de vinte andares.

Cheguei no local do acidente às 15:45h. Todos os jornais estavam lá desde cedo, alguns até com duas equipes, e os jornalistas cada vez se aproximavam mais do prédio interditado. Nesta hora, o responsável pela Defesa Civil, Frederico Behen, gritava, histérico, “saiam, saiam, saiam, porque o prédio vai cair!”. Nós nos afastávamos, mas logo em seguida voltavam todos.


Nesse momento o prédio estalou, todos correram, alguns para a parte alta da rua e outros para a parte baixa, sendo que eu corri para baixo. Logo em seguida todos voltaram, quando, sem outro aviso, o prédio caiu.


Só o Jornal do Brasil publicou a sequência do prédio caindo, eram 16:15h.

Coisas que aconteceram depois:
1) Ribeirinho, fotógrafo da Última Hora chegou na redação e disse que tinha feito a queda do prédio sozinho. No dia seguinte, o jornal publicou só a foto da poeira, com uma tarja “exclusiva”. Quando ele chegou para trabalhar, nem subiu: estava demitido;
2) A foto do Jornal O Fluminense era só poeira e eu aparecia na foto;
3) O cabo-man da TV Globo se assustou, correu e desligou a camera. Então, a TV Globo ficou sem o registro da queda do prédio;


4) Alberto Ferreira, Editor de Fotografia do JB, foi para a redação e quando voltou para a fotografia entrou gritando que ninguem tinha feito;

5) Chico Caruso, no dia seguinte, publicou uma charge intitulada "É melhor sair daí", usando toda a seqüência fotográfica, mas sem dar o crédito. Houve, então, uma grita geral, todos reclamaram. Pouco tempo depois o fotógrafo Delfim Vieira foi para o Nordeste, onde fotografou um morador local comendo um calango (foto que se tornou famosa) e Chico Caruso fez uma charge sobre a foto de Delfim Vieira, colocando, o que em geral se repete até hoje, o crédito.

Gilson Barreto > Comecei como repórter-fotográfico em 1970, na sucursal de O Dia em Niterói, acumulando, em seguida, com O Fluminense. Depois, fui para o Rio, onde trabalhei na Editora Abril, na Última Hora, na Tribuna da Imprensa e na TV Globo, até entrar para o Jornal do Brasil em 1982, aonde fiquei até o final de 1989.
Passei então a trabalhar na sucursal Rio do Estadão, mas acabei retornando a O Dia em 1992, quando ocorreu a reformulação do jornal. Em 1994, sofri um acidente com fratura exposta tíbia e do perônio, cuja recuperação levou dois anos e daí me aposentei.
Atualmente, sou free-lancer, trabalhando para empresas.

.

2 comentários:

Irma Lasmar disse...

O making of é ótimo - dá noção da adrenalina do momento e ainda rende boas risadas. Parabéns pelo blog e pelas memórias inapagáveis.

Up Studio Fotografia disse...

Hoje é Dia Mundial da Fotografia. E minha homenagem é toda para o grande fotógrafo Gilson Barreto. Meu padrinho e grande incentivador, o Dindo nos deixou nesta segunda, dia 17/08. Cansou da luta. Foi captar luzes mais claras e límpidas no céu. Sei que ao morrer serei recebida por ele com novas imagens incríveis de algo que eu nunca percebi antes. Enquanto esse dia não chega, divido com vocês algumas das suas fotos mais famosas.